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Quarta Revolução Industrial para a Amazônia
19/10/2016

Baseado na utilização de ativos da biodiversidade e da biomimética, modelo associa ciência, tecnologia de ponta, inovação e conhecimento tradicional para uma nova via de desenvolvimento para região.

A utilização econômica da biodiversidade da Amazônia, dos conhecimentos e avanços da pesquisa em tecnologias avançadas da Quarta Revolução Industrial em curso ( inteligência artificial, robótica, internet das coisas, genômica, edição genética, nanotecnologias, impressão 3D ), mas em permanente diálogo com os conhecimentos tradicionais dos povos da floresta é uma via capaz de mudar o trágico e irreversível destino a que a maior floresta do planeta parece estar condenada, caso sigamos no atual modelo de desenvolvimento da região.

As drásticas mudanças no uso da terra, com altas taxas de desmatamento e incêndios cada vez mais frequentes que, combinado com períodos de seca cada vez mais longos e eventos climáticos extremos podem levar a floresta a um processo irreversível de “savanização”.

Os cientistas preveem que até 2050, metade da floresta tropical pode ser substituída por savanas tropicais degradadas ou florestas sazonais, mais secas – e mais pobres.

Ou seja, o ponto sem retorno para a sobrevivência da maior floresta tropical do planeta pode estar logo adiante, com consequências catastróficas para o Brasil, a América do Sul e o mundo.

“Se o aquecimento na Amazônia ultrapassar 4 graus C ou mais de 40% da floresta forem desmatados, atingiremos o ponto de ruptura do equilíbrio da floresta com o clima e o processo de savanização poderá tornar-se irreversível”

Adverte o climatologista Carlos Nobre, cientista brasileiro Carlos Nobre, climatologista formado pelo MIT.

A recente redução de 80% do desmatamento da floresta Amazônica no Brasil nos últimos 10 anos permite criar uma ponte para inverter radicalmente o modelo econômico vigente na Amazônia e buscar nos ativos da biodiversidade e da biomimética um trampolim para o futuro.

Seria a Quarta Revolução Industrial, como está sendo chamada por um grupo de cientistas e empreendedores que acaba de publicar na prestigiada revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) um estudo que indica dois pontos importantes: os riscos catastróficos de uma eventual savanizacão e um plano de inovação em grande escala para a Amazônia.

Liderado por Nobre, o grupo é formado ainda pelo empreendedor peruano Juan Carlos Castilla-Rubio, engenheiro bioquímico da Universidade de Cambridge, os pesquisadores do INPE, Gilvan Sampaio, Laura Borma e Manoel Cardoso e o pós-doutorando da UnB, José Silva.

Eles defendem que, no curto prazo e com baixa abordagem tecnológica, é viável desenvolver produtos baseados na biodiversidade com alto valor agregado, capazes de atingir mercados globais com um diferencial único.

No artigo, eles citam como exemplo o alcaloide spilanthol, encontrado nas folhas, galhos e flores do jambu – uma planta corriqueira nos quintais amazônicos e de vasta aplicação na culinária local, que deixa a língua levemente dormente quando ingerido – descrito em patentes para anestésicos, antissépticos, antirrugas, creme dental, usos ginecológicos e anti-inflamatórios.

O óleo da copaíba, de fácil processamento na Amazônia, pode ser alternativa na formação do eixo químico fluorine-xylo para cosméticos e produtos farmacêuticos, entre outras possibilidades já existentes. Mas a lente desses cientistas e empreendedores está tentando enxergar ainda mais profundamente na miríade de inovações que a floresta potencialmente oferece.

No artigo, os pesquisadores discutem inovações utilizando as tecnologias da Quarta Revolução Industrial que tentam imitar as formas naturais da floresta, os processos, as moléculas, os materiais, e ecossistemas capazes de inspirar inovações de grande valor para múltiplas industrias no Brasil e no mundo.

“Estamos entendendo rapidamente como as coisas são criadas na natureza e como os organismos sentem o seu ambiente por meio de sofisticados sensores, como interpretam essa informação, como se movem em seu ambiente a partir de princípios biomecânicos e cinéticos, e como se comportam e funcionam processos que levaram milhões de anos para se desenvolver”, afirma Castilla-Rubio.

Além disso, diz ele, a floresta reproduz sistemas biológicos complexos e soluções biomiméticas para problemas numa escala nanomolecular, além de ser capaz de nos ensinar processos ambientais amigáveis, indicando tecnologias de prevenção e remediação da poluição, elaboração de estruturas têxteis inspiradas em animais e vegetais e nas aplicações robóticas de inteligência artificial de comportamento e cognição, que estão na fase inicial do ciclo de inovação.

“Através da biomimética, podemos chegar a inovações revolucionarias de alta eficiência na produção de energia. Na natureza, a fotossíntese gera energia para as plantas, e os microorganismos geram sua própria energia a partir de outras fontes, como é o caso da bactéria que fixa súlfur”, cita Castilla-Rubio.

Ele conta que há uma espécie de rã-túngara, que cria uma espuma de longa duração, e que tem inspirado a geração de novas energias e tecnologias de captura de dióxido de carbono. Sem falar das plantas que influenciaram diretamente o modelo de célula solar potencialmente gerando alternativas muito mais baratas do que as placas fotovoltaicas de silício.

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